7 de dez. de 2009

O sucesso que dá medo

Mulheres admiradas, bem-sucedidas na carreira, relatam como, nos momentos em que mais se destacam, são assaltadas pela dúvida: "Será que não sou uma fraude?"

Juliana Linhares

Quem olha de fora vê uma mulher bem-sucedida e segura de si, admirada e invejada por seus pares. Por dentro, algumas vezes as protagonistas de histórias de sucesso, em especial as que sobem rapidamente na carreira, angustiam-se com dúvidas sobre a própria capacidade de dar conta do recado. Não o questionamento saudável, a que todo ser humano psiquicamente íntegro deve se submeter com alguma regularidade, mas uma sufocante sensação de que se está enganando todo mundo. A atriz Deborah Secco, 30 anos, já havia feito catorze novelas, sete filmes e quatro seriados quando recebeu o convite para participar de um trabalho mais elaborado no seriado Decamerão, da Rede Globo. O peso do texto clássico e dos colegas talentosos abalou até um monumento como Deborah. Ela chegou a desabafar com o diretor do programa, Guel Arraes. "Disse a ele: 'às vezes me dá um medo. Acho que uma hora vão descobrir que eu não sei fazer isso' ", relata. Deborah foi tranquilizada e a crise passou, como em geral acontece. A psicóloga americana Valerie Young, uma das maiores pesquisadoras no que chama de Fenômeno do Impostor ("Já que ele ainda não foi catalogado oficialmente como uma desordem emocional", explica), afirma que 70% das pessoas bem-sucedidas profissionalmente já passaram por situação parecida em algum momento da carreira. Apesar de afligir também os homens, é muito mais comum em mulheres. "Somos mais atingidas, entre outros motivos, pelo fato de sermos a primeira geração de mulheres em altos cargos nas empresas. Isso provoca um questionamento íntimo muito forte", explica Valerie.

Todos os afetados são praticamente unânimes em relatar a mesma reação: a impressão de que a qualquer momento "alguém" vai aparecer, bater no seu ombro e dizer que a impostura foi por fim descoberta. Morando atualmente na Austrália, onde termina um MBA, a executiva paulistana Eneida Bini, 49 anos, é o caso clássico da profissional de carreira exemplar em público e dúvidas atrozes em particular. Em apenas dez anos, tornou-se gerente, diretora, vice-presidente e presidente de uma multinacional de cosméticos. Quando parecia estar no auge, aceitou o convite para presidir outro gigante do setor. "Apesar de todas essas conquistas, eu pensava: 'Será que eu sou tudo isso? Será que mereço os elogios e as promoções que recebo? Talvez não' ", relata. No início de uma carreira que tem tudo para ser brilhante – ela mora nos Estados Unidos e faz doutorado em ciências da computação –, Juliana Freitag Borin, 31, também tem a coragem de assumir as mesmas inseguranças. "Penso que esse lugar não é para mim. A sensação é que em algum momento vão entender que não sou tão capaz quanto pensam que sou", diz Juliana, que nas horas de cobrança brava se ampara no marido. "Ele me lembra dos artigos que já publiquei e de que tenho mestrado e doutorado quase completo."

Em 1978, duas psicólogas da Universidade da Geórgia, Pauline Clance e Suzanne Imes, analisaram um grupo de 150 mulheres com carreira promissora que duvidavam da própria competência e creditavam seu sucesso à sorte ou ao fato de tapearem seus chefes sobre sua capacidade. Em comum, tinham entre 30 e 40 anos, haviam sido promovidas uma ou várias vezes em curto espaço de tempo, eram testadas em seus limites e, apesar do apoio dos superiores e dos bons resultados operacionais, sempre colocavam em dúvida suas realizações. As duas pesquisadoras chegaram a sugerir que o distúrbio ganhasse dimensão de síndrome e fosse tratado como deficiência emocional, mas a proposta não foi para a frente. A psicóloga brasileira Ana Fraiman, que trabalha com preparação de carreiras, acredita que a raiz do processo esteja na infância: crianças inteligentes, atiradas ou dotadas de talento artístico cujos pais negligenciam ou censuram essas qualidades podem desenvolver uma insegurança crônica. "Do ponto de vista profissional, são pessoas brilhantes. Mas afetivamente são carentes e vulneráveis", explica. A tese, no entanto, não se aplica a todo mundo. Eneida, por exemplo, diz que viveu uma história exatamente contrária: na infância, seus méritos eram reconhecidos e incentivados, o que a levou a um processo crescente de cobrança interior. "Eu me destacava em tudo o que fazia. Minha mãe me elogiava muito para as amigas dela, e eu, cada vez mais, me sentia na responsabilidade de confirmar que ela estava certa", conta.

Os estudiosos do tema constatam que, além das executivas em altos cargos, artistas também são especialmente vulneráveis ao sentimento de impostura. "Isso acontece em parte por causa do assédio agressivo dos fãs, que endeusam seus ídolos, e também porque as artistas convivem com a angústia de não saber se terão uma performance tão boa quanto a do último filme ou disco", diz Valerie Young. É possível argumentar também pelo caminho inverso: carreiras em que a adoração é a norma atraem pessoas justamente que têm necessidade profunda de ser aduladas – e muita insegurança sobre seu talento. A cantora canadense Nelly Furtado já declarou em entrevista que, a certo momento da carreira, se sentiu exatamente assim. "A fama me pegou de surpresa. Foi tudo muito rápido. Depois de dois anos de turnê e festas, comecei a passar horas sozinha em casa, olhando para o chão; eu me sentia uma fraude", disse. A atriz inglesa Rachel Weisz, Oscar de atriz coadjuvante pelo filme O Jardineiro Fiel, carrega um peso similar: "Sinto culpa por tudo, principalmente pelo sucesso. É como se, ao me sair bem, estivesse privando alguém de alguma coisa". Ao ganhar um Oscar pelo filme Acusados, em 1989, Jodie Foster, acostumada à fama desde criança, abriu o coração: "Sinto que estou trapaceando, e algum dia vão descobrir que eu não sabia o que estava fazendo". Até hoje, obviamente, ninguém deu o tapinha no ombro e a mandou cair fora.

Impostores de verdade


Tem gente que sabe tudo, mas acha que não vale nada, e tem gente que acha que vale tudo e sabe dar um jeitinho nos eventuais problemas que apareçam diante desse conceito. Estamos falando de Michaele e Tareq Salahi, o casal que deu um aplique na Casa Branca, como o planeta inteiro a esta altura deve estar sabendo. Eles vão ser punidos ou vão voar ainda mais alto, aparecendo num reality show? Vão virar celebridades permanentes ou chafurdar na indesejável categoria de ex-famosos? A ânsia de projeção é um dos fenômenos mais aborrecidamente comentados da era contemporânea, mas não adianta: toda vez que alguém faz alguma coisa absurda para aparecer, é irresistível não dar uma espiada. Munidos de boa figura e imensa cara de pau, eles entraram aparentemente sem convite na primeira recepção de gala do governo Obama. Como o homenageado era o primeiro-ministro da Índia, Michaele, ex-coisa-nenhuma apesar das pretensões à fama, vestiu um sári de parar o trânsito em Nova Délhi e roubou a festa.

Ela e o marido cumprimentaram Obama em pessoa, tiraram fotos com figurões e, ao chamado para o jantar de lugares marcados, foram embora de fininho. Ninguém ficaria sabendo, mas aí não teria graça. Então, postaram as fotos em sua página na internet. Pronto, viraram caso de segurança nacional. Michaele, 44 anos, e Tareq, 41, frequentam o mundo dos cavalos e dos campeonatos de polo, mas têm fortuna duvidosa, uma vinícola falida e uma coleção de processos. Ela é candidata a um programa sobre a vida de milionárias. "Não somos penetras", garante. Uma confusa troca de e-mails com a amiga de um amigo bem relacionada na Casa Branca revela intenso esforço para obter convite. A Casa Branca investiga, o Serviço Secreto idem, até o Congresso se debruça sobre o fato. O casal transpira felicidade.

FONTE: Revista Veja.

A geração Y no processo seletivo

Max Gehringer

Sou gerente de seleção de uma multinacional que anualmente oferece vagas a trainees, num processo disputadíssimo – são mais de cem candidatos por vaga. Temos experimentado certa frustração com o desempenho dos contratados. Eles se revelam imediatistas e refratários à autoridade dos superiores. Fico pensando se estamos cometendo algum erro no processo.
Essa é a geração Y, nome dado aos jovens que vieram ao mundo entre 1980 e 2000, na era da internet. São pessoas elétricas, capazes de fazer várias coisas ao mesmo tempo sem perder o foco. Também são questionadoras e pouco pacientes para aguardar que as coisas aconteçam em seu devido tempo, principalmente na vida profissional. Nem todos os jovens brasileiros são assim. Talvez 20% sejam, se tanto. Mas, na empresa de nossa leitora, praticamente todos são. Ao peneirar os candidatos, ela busca exatamente aquilo que vai gerar controvérsias em curto prazo: atualização e ambição. Jovens com esse perfil não estão dispostos a cumprir ordens sem entender a razão, ou a aceitar tarefas rotineiras e sem desafios, ou a esperar dois anos por uma oportunidade de promoção. A urgência da geração Y se choca com o pragmatismo da geração anterior, que ocupa os principais cargos nas empresas. Por isso a leitora inferiu que talvez exista um "erro no processo". Não é bem um erro, é um desencontro. Ela está contratando os expoentes da geração Y, e eles estão mostrando na prática aquilo que os diferenciou no processo seletivo. Ou nossa leitora muda o processo e passa a contratar jovens que não sejam tão Y, ou os superiores aprendem a conviver melhor com a pressa dos subordinados. Para mim, a segunda opção não é apenas recomendável. É inexorável.

FONTE: Revista Época.

17 de set. de 2009

Patrocínio para Primeiras Obras

O Centro Cultural da Juventude Ruth Cardoso abre inscrições para a 3ª edição do Edital de Co-Patrocínio para Primeiras Obras. Criado em 2007 pela Secretaria Municipal de Cultura, o fundo é destinado a profissionais iniciantes.

A prioridade é para propostas que utilizem recursos multimídia. Serão premiados até 6 projetos (com R$ 30 mil se pessoa física e R$ 50 mil se jurídica) e os valores deverão ser integralmente aplicados no produto final. Os direitos autorais patrimoniais ficam cedidos ao município de São Paulo por tempo indeterminado.

Os interessados devem se inscrever até 30 de outubro, na recepção do CCJ (Av. Deputado Emílio Carlos, 3.641, Vila Nova Cachoeirinha, Tel.: 3984-2466). Confira o edital.

Cultura Inglesa premia artes

A Cultura Inglesa vai premiar, com valores entre R$ 25 mil e R$ 38 mil, projetos inspirados em arte britânica nas áreas de teatro adulto e infantil, artes visuais, dança ou curta-metragem digital (incluindo animação). Inscrições abertas até 10 de novembro.

Os projetos escolhidos por uma curadoria de renomados jornalistas, acadêmicos e artistas das diversas áreas se transformam em 15 atrações produzidas especialmente para o festival, que ocorrerá em maio do próximo ano.

Fonte: http://www.culturainglesasp.com.br/14cif/homepage.mmp

30 de ago. de 2009

Orkuts da literatura

Duas redes sociais brasileiras reúnem os apaixonados por literatura:

• Ao se tornar membro de O Livreiro, é possível montar a estante pessoal, selecionar autores preferidos, resenhar obras lidas, buscar sugestões de leitura, descobrir afinidades compartilhadas e criar comunidades sobre assuntos de interesse. O canal Notícias funciona como um agregador de informações atualizadas sobre autores e livros no país e no exterior. Por meio do Eu, Livreiro, o usuário é convidado a contribuir com informações e opiniões. No Clube do Livro, comandado pelo escritor Milton Hatoum, uma obra é lida e debatida a cada seis semanas.

• O Skoob é o local onde você diz o que está lendo, o que já leu e o que ainda vai ler, seus amigos fazem o mesmo e assim, todos compartilham suas opiniões e críticas. É também um lugar para fazer novos amigos, tem muita gente que gosta dos mesmos livros que você, nosso papel é ajudá-lo a encontrar essas pessoas e saber quais são suas dicas para a sua próxima leitura.
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27 de ago. de 2009

Programa para estreantes na dramaturgia

Núcleo de Dramaturgia SESI-British Council
Até o dia dia 30 de abril de 2010, o Núcleo de Dramaturgia SESI-British Council recebe textos de dramaturgos estreantes (que nunca tiveram texto teatral publicado ou encenado profissionalmente). É preciso enviar um ato, extrato ou texto na íntegra, com no mínimo 15 e no máximo 20 laudas (21 mil a 28 mil caracteres). Os selecionados passarão por um processo de aprimoramento e desenvolvimento das técnicas dramatúrgicas, sob supervisão da coordenação literária do projeto, durante o período de um ano.

25 de ago. de 2009

Oportunidade para dramaturgos

A partir de setembro, toda quarta-feira é dia de peça nova no teatro Gláucio Gil (RJ). Vai começar o Clube da Cena, um projeto coletivo -- com concepção e direção geral da atriz Cristina Fagundes -- que reunirá 28 atores, 19 autores, um músico e diversos convidados, encenando sete novos esquetes temáticos semanalmente, até o final de novembro.

São seis autores fixos e um autor convidado a cada semana, criando esquetes de até 8 minutos. Os dramaturgos selecionados receberão 1,5% do bruto da bilheteria do dia e terão seus esquetes encenados. O tema da estréia, em 2 de setembro, já foi escolhido e os autores já estão escrevendo, será "sonho". Os próximos temas serão definidos ao longo do processo. Dramaturgos interessados podem participar da seleção enviando um esquete de até 8 minutos sobre o tema "mentira" até segunda-feira próxima, dia 28 de agosto. (Mais informações: cris1@ism.com.br)

Os atores ficarão sabendo seus parceiros de trabalho e seu texto através de sorteio, realizado uma semana antes do dia da apresentação. Serão sorteados sete grupos de dois atores cada um, para encenar os sete textos. A partir daí, os atores se encontrarão com seus parceiros de trabalho separadamente e convidarão artistas, como diretores e atores, para ajudarem a compor a cena e só retornarão ao teatro no dia da apresentação, quando será feito um ensaio geral de luz e som 3 horas antes da apresentação. Serão dois elencos diferentes que se alternarão a cada semana.

Onde: Teatro Gláucio Gil (Praça Cardeal Arcoverde, s/n - ao lado do Metrô Arcoverde - bilheteria: 2332-7904). Quando: Quartas-feiras de setembro a novembro, às 20h. Preço: R$ 10 (inteira) e R$ 5 (meia). Classificação etária: 14 anos. Realização: Fagundes Produções Artísticas

19 de ago. de 2009

Leitor quer ser cativado, não convencido

Malcolm Gladwell, 45 anos, filho de mãe jamaicana e pai inglês, é ensaísta da revista The New Yorker e está na galeria dos escritores mais festejados de Nova York. Fez sua estreia em 2000, com O Ponto da Virada, em que analisa como se espalham ideias e modismos. Está até hoje na lista dos mais vendidos do New York Times. São 252 semanas. Depois veio Blink, que pode virar filme com Al Pacino no papel principal, e agora saiu Fora de Série, outro campeão de vendas. Somados, os três títulos já venderam 8 milhões de exemplares. "Sou um tradutor", diz Gladwell. "Traduzo ideias acadêmicas para uma audiência de massa." Na boca dos admiradores, seu nome é sinônimo de brilhantismo. Na dos críticos, Gladwell é apenas outra palavra para designar algo fútil, banal. Em menos de dez anos, ele ficou rico, embolsa 1 milhão de dólares por ano e cobra 40 mil dólares por palestra. Diz que escrever livros é divertido, não dá bola para dinheiro e mora num apartamento quase modesto em Nova York, onde conversou com VEJA, sentado à mesa da cozinha e bebendo água da torneira. Com gelo.

O senhor tem três livros e três campeões de venda. Qual é o segredo?
Além de sorte, é preciso entender a diferença entre o leitor especializado e o leitor comum. Se estou escrevendo sobre psicologia para psicólogos, não basta eu contar uma história atraente e apresentar uma série de ideias acadêmicas interessantes. Preciso convencê-los. Preciso apresentar minha hipótese e fazer uma exposição exaustiva e rigorosa dos meus argumentos. É o trabalho deles. Eles só podem ser convencidos com base em argumentos irrefutáveis. O leitor comum, o comprador típico de livros, não é assim. Ler não é o trabalho dele. Ele quer se divertir com as ideias. Quando está lendo no avião, no fim de semana, à noite em casa, o leitor comum não quer ser convencido. Quer ser cativado. É isso: acredito que livros bem--sucedidos são os que tentam cativar, e não convencer.

  • Leia a entrevista completa na Veja.

16 de ago. de 2009

A Ascensão das oficinas literárias

Neste domingo, a Folha publicou no caderno Mais uma reportagem especial sobre o crescimento da procura por oficinas de redação criativa. Confira alguns trechos (neste e nos 4 posts seguintes):

Foto: Filipe Redondo/Folha Imagem
Oficina de escrita criativa na Casa do Saber, em São Paulo (Crédito: Filipe Redondo/Folha Imagem)
Oficina de escrita criativa na Casa do Saber, em São Paulo

O Brasil vive a emergência de um movimento literário: o dos escritores com diploma de autor. Centros culturais com lotação esgotada e professores particulares com fila de espera caracterizam a vicejante versão brasileira da disciplina "creative writing" (escrita criativa) das universidades norte-americanas. Os resultados são semelhantes: escritores reconhecidos pela crítica e premiados nos concursos de literatura.

(Locais citados: Casa do Saber, Casa das Rosas, espaço O Barco, PUC-RS.)

A PUC-RS, que mantém oficinas há mais de 20 anos, abriu em 2006 o eixo de escrita criativa na graduação. As turmas tiveram de ser ampliadas para dar conta da demanda. O professor Luiz Antonio de Assis Brasil, que comemora também a criação do mestrado no tema, integra com Kiefer o que pode ser visto como o atual centro nervoso das oficinas de escrita gaúchas, das quais saíram nomes como Cíntia Moscovich, Daniel Galera e Michel Laub.

Charles Kiefer, que leciona escrita criativa na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, mantém uma das mais procuradas oficinas de escrita do Brasil. "Tenho mais de 1.200 pessoas na lista de espera", diz. E conjectura: "A internet é que está gerando a demanda enorme no Brasil. Todo mundo tem blog, todo mundo escreve, mas uma hora se dá conta de que precisa estudar, avançar".

"A formação do escritor inclui ler muito, conhecer a crítica e, podendo, fazer um curso de escrita", diz Assis Brasil. Para ele, editores consideram esse item na biografia do autor quando apreciam originais.

No fim da história, todas as personagens se obrigam a concordar que escola não faz gênio, mas pode desenvolver pessoas interessadas. Cabe ao aluno escolher o professor.

O modelo americano

Aulas práticas de literatura já viraram história nos EUA. Em The Program Era (A Era dos Programas, Harvard University Press, 466 págs., US$ 35, R$ 64), Mark McGurl argumenta que não dá para compreender a literatura norte-americana do pós-guerra sem conhecer os programas universitários de escrita criativa.

FOLHA - Quantos cursos existem nas universidades dos EUA?
MCGURL - Cerca de 750 cursos de graduação, de aproximadamente 2.000 faculdades. Cerca de 350 cursos de pós-graduação. É claro que o mercado editorial não pode absorver tantos escritores, há um enorme excesso de oferta.

FOLHA - Que fará toda essa gente?
MCGURL - Alguns se tornarão grandes escritores. Vão escrever poesia e prosa e ensinar poesia e prosa. Outros se tornarão escritores menos conhecidos ou professores de escrita. Para o resto, é um treinamento sem uso profissional, é uma extensão da "educação liberal".

FOLHA - Os velhos exemplos do escritor como jornalista viajado, sábio isolado ou servidor público com tempo livre... estão datados?
MCGURL - É claro que há espaço para esses tipos de escritor. Se observar a história da literatura, especialmente nos EUA, o jornalismo tem sido a instituição-chave, com inúmeros escritores que participam do jornalismo de uma forma ou de outra. Essa opção ainda existe, mas a opção de ensinar a escrita junto com a prática da poesia ou da prosa está crescendo. Surge como uma carreira de escritor: "escrever enquanto ensina". Sempre haverá o forasteiro vindo sabe-se lá donde, mas a universidade cresceu a ponto de recentemente se tornar o centro da produção.

Relato de um escritor aprendiz

Surpreendente, mas inevitável. Quando, em algum momento de 1999, o professor Assis Brasil [que coordena oficinas de texto na PUC-RS] colocou nesses termos para seus alunos o desfecho ideal de todo conto, eu sabia exatamente do que ele estava falando. Sabia porque, aos 20 anos, já tinha lido centenas de contos. Mas eu sabia sem saber.

Tinha a experiência, mas não a consciência da experiência.

Sabe lá quanto tempo eu levaria para chegar sozinho a uma fórmula tão elegante para definir o instante em que o subtexto, tão essencial ao conto moderno, vem à tona. Talvez nunca chegasse. Foi esse tipo de coisa que a oficina de literatura do Assis me deu de bandeja.

(...) Numa das várias aulas em que abordou o subtexto literário, Assis Brasil nos deu como exemplo uma famosa anotação para um conto encontrada num caderno de Tchekhov:

"Um homem vai ao cassino de Monte Carlo e ganha uma fortuna na roleta. Volta para o hotel e se suicida". Essa é a história aparente do conto, e supõe-se que o elemento crucial, o motivo de o homem matar-se nessa estranha circunstância, seria infiltrado no enredo como história oculta, ou subtexto. Cabe ao leitor captar o subtexto. Cabe ao escritor dar-lhe pistas na dose exata para que a descoberta exija esforço e seja recompensadora na mesma medida. O suicídio deve ser surpreendente. Mas também deve ser inevitável. Como a atitude de Riabovitch no final de "O Beijo".

Por trás de todo conto há uma parábola, ou seja, a projeção de uma história em outra história. O conto aponta para outra narrativa que o extrapola, e que se encontra em grande parte na experiência de vida do leitor. Construir essa ponte faz parte da nossa natureza.

(...) Eis o "nocaute" do conto: o autor cria condições para que uma potente parábola seja escrita com a participação do leitor, mas entrega a chave só no final. O desfecho é o começo.

(...) Não creio que uma oficina literária possa forjar um talento. Mas esse é um exemplo de como ela pode, sim, aprofundar e instrumentalizar a relação de um possível autor com as narrativas que lê e escreve.

(...) Nunca escrevi tanto quanto naquele ano. A oficina nos exigia em média um conto por semana. Narrar uma saga familiar de cinco séculos em cinco linhas. Narrar um episódio de dez segundos em dez páginas.

Contar uma história apenas com descrições do cenário. Os textos eram analisados pelo professor e exaustivamente debatidos pelos alunos, que acumulavam cada vez mais ferramentas para a tarefa. Clichês, técnicas de diálogo, modalidades de narradores.
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DANIEL GALERA , escritor e tradutor, é autor de Cordilheira (Cia. das Letras).

O que fazer com um texto?

Três professores de oficinas literárias chamam a atenção para regras básicas de leitura e escrita

"Use em abundância o ponto final"

PARA LER
1. Ignorar os best-sellers, por maior que seja a tentação. Deixe passar cinco anos. Se o livro ainda respirar bem, pode investir.
2. Ler com desconfiança o que lê. Se o livro resistir a essa leitura, é porque é bom.
3. Ler com um lápis na mão. E usá-lo.
4. Conhecer pessoalmente o escritor só depois de ler o livro; caso contrário, a figura do escritor ficará colada ao texto, como um fantasma.
5. Ler edições que tenham bom gosto. Uma edição amadora piora dramaticamente o livro.

PARA ESCREVER
1. Dedicar mais tempo à leitura do que à escrita.
2. Usar em abundância o ponto final, especialmente quando a frase resiste a qualquer conserto.
3. Usar material de primeira qualidade: bom computador, bom papel de impressão, bons cadernos (sugiro o Moleskine), boas canetas, bons lápis.
4. Não levar o laptop para a cozinha ou para a sala de visitas. Se não tiver um gabinete exclusivo, o quarto é uma boa escolha.
5. Escrever apenas sobre o que conhece perfeitamente, mesmo que seja um romance passado no futuro.
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LUIZ ANTONIO DE ASSIS BRASIL é professor na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul e autor de Ensaios Íntimos e Imperfeitos (L&PM), entre outros livros.

"Desconfie das dicas que lhe dão"


PARA LER
1. Quanto mais um livro fizer mal, melhor.
2. Confortável precisa ser a cama, não a literatura.
3. Evitar lista dos mais vendidos.
4. Livro não é para ser entendido, é para ser sentido.
5. Desconfiar das dicas que te dão.

PARA ESCREVER
1. Cortar palavras.
2. Não usar gravata na hora de escrever.
3. Ouvir, mesmo que baixinho, a própria voz.
4. Desconfiar daquele texto que sua mãe gostou.
5. Ler e beber muito. E, no mais: viver.
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MARCELINO FREIRE é autor, entre outros livros, de Contos Negreiros (ed. Record) e organizador de Os Cem Menores Contos Brasileiros do Século (Ateliê).

"Leia como se fosse o psicanalista que ouve um paciente"


PARA LER
1. Se você estiver diante de um um clássico provado pelos tempos -Shakespeare, Voltaire, Machado de Assis- e acontecer alguma dificuldade na leitura, pode ter certeza de que o problema é seu, não do texto. Bons textos muitas vezes exigem mais de uma tentativa de leitura.
2. No concreto de uma leitura, pode acontecer que a fruição fique embaçada. Antes de entrar em pânico, tente localizar o foco do impasse: se for uma palavra específica que seja desconhecida, para isso existe o dicionário; se não, volte a atenção para os "que", para os nexos entre as partes da frase.
3. Um texto literário, obra de arte que é (ou aspira a ser), tem direito de ser como é, em sua integridade. Isso alerta para a necessidade de a leitura ser respeitosa: o leitor deve dispor-se a receber as informações e as formas do texto tal como o autor as concebeu. Mas isso não impede que o leitor comum pule fora ao perceber que seu honesto empenho de leitura não está sendo recompensado.
4. Um texto literário merece ser lido em pelo menos duas dimensões, uma linear e a outra enviesada. A segunda é menos perceptível, mas muitas vezes é decisiva, e tem sua carnadura num plano alusivo, nas chamadas entrelinhas, num patamar figurado ou alegórico. A boa leitura não pode contentar-se com a decifração daquela primeira dimensão, necessitando uma atenção mais difusa, próxima da atenção que os psicanalistas praticam ao ouvir o paciente.
5. Em narrativas, um detalhe radicalmente importante, em especial nos romances e contos escritos a partir do final do século 19 (no Brasil, o marco é Machado de Assis, mas você pode pensar em Dostoiévski, em Poe, em Flaubert), é o jeito de ser do narrador. O bom leitor sempre mantém em vista que o narrador pode ser parte interessada no enredo, pode ser parcial na avaliação dos fatos e das pessoas que menciona, pode saber mais ou menos do que aparenta.

PARA ESCREVER
1. Tenha sempre em conta que do outro lado de seu texto há, na melhor hipótese, um leitor; e que essa figura, preciosa e fugidia, pode abandonar o barco a qualquer momento. O autor tem todo o direito de radicalizar sua escrita, ser inventivo e ousado, mas também o leitor tem o direito de radicalizar por sua parte, caindo fora.
2. Uma das escolhas básicas para quem escreve um relato diz respeito à distância que o texto vai colocar entre a voz narrativa e o(s) personagem(ns), entre as palavras que o leitor vai ler e a vida íntima do personagem, dentro do enredo. Mesmo um narrador de terceira pessoa pode ser muito próximo dos fatos e das pessoas envolvidas, pode acompanhar as ações muito de perto, assim como um narrador de primeira pessoa pode manter uma distância relativamente serena a respeito dos fatos.
3. Embora no sentido trivial o leitor é quem escolhe o texto que vai ler, num sentido muito profundo é o texto que escolhe seu leitor: suas escolhas vão delimitando o universo potencial dos leitores, que serão mais ou menos sofisticados ou numerosos conforme as opções do autor. Confrontar ou agradar o leitor, eis uma questão que é bom ter em mente, para fazer a escolha que interessa (nisso os grandes revolucionários têm muito a ensinar; veja como Miguel de Cervantes, Honoré de Balzac, Machado de Assis e outros tratam o leitor).
4. Escrever é, em grande medida, administrar entre conhecido e desconhecido, redundância e informação. Um dos riscos sempre implicados nesse campo é o de depender do "background" do leitor, das informações que ele traz (ou não) consigo. Muitas vezes um relato sucumbe porque espera que o leitor aporte conteúdos para compor o sentido de alusões, entreditos, sugestões que o enredo contém.
5. Quem inventa uma ficção está mentindo e espera que o leitor aceite a mentira. Mas sobre essa base há uma outra camada de indispensável verdade: o escritor nunca deve trapacear, nunca fazer pose ou jogar para a torcida. Se começar a contar uma história, tem que assumir o compromisso de contar tudo que importa para que ela aconteça.
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LUÍS AUGUSTO FISCHER é crítico literário, professor na Universidade Federal do Rio Grande do Sul e autor de Machado e Borges (ed. Arquipélago), entre outros.

Fonte: Folha de S. Paulo.
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Obras didáticas

A Preparação do Escritor
Raimundo Carrero, autor de O Amor Não Tem Bons Sentimentos (ed. Iluminuras), divide o texto em 11 "aulas" sobre temas como "a invenção do personagem" ou "como são feitos os diálogos". Inclui sugestão de exercício ao final dos capítulos. Lançamento da ed. Iluminuras.

Para Ler Como um Escritor

Francine Prose é autora de A Vida das Musas (Nova Fronteira) e romancista. O título entrega o segredo dos demais professores de escrita: ler atentamente os clássicos. Ela analisa autores como Jane Austen e Vladimir Nabokov. Ed. Zahar.

Oficina de Escritores
Autor de O Ponto de Ruptura (ed. Difel), Stephen Koch foi professor de escrita criativa em Columbia e Princeton. Com frases de autores consagrados sobre o ato de escrever, o livro dá dicas como "o que faz a legibilidade não é a clareza, mas a atitude". Ed. Martins Fontes.

Fonte: Folha de S. Paulo.
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5 de mai. de 2009

Prêmio para novos autores

Uma boa oportunidade para os escritores iniciantes publicarem suas obras é o Prêmio Sesc de Literatura, que vai selecionar textos inéditos, escritos em língua portuguesa, por autores brasileiros ou estrangeiros que moram no Brasil. Os participantes podem concorrer com uma obra, nas categorias coletânea de contos e romance, e os vencedores terão um livro publicado pela editora Record. As obras serão distribuídas para a rede de bibliotecas e salas de leitura do Sesc e Senac. Os interessados podem se inscrever até o dia 30 de setembro.