8 de nov. de 2008

No cinema com Waly




Hoje encontrei Waly Salomão no Unibanco Arteplex, no Shopping Frei Caneca. Pra quem conhece o cara, nem precisa dizer que foi uma experiência intensa. Mais do que importante nome da literatura e da música brasileiras, ele é uma figuraça. Digo “é” porque ele agora vive na telona, provando sua máxima de que “a vida é sonho”, uma obra de ficção permanente. Transbordou as páginas para transformar tudo – até suas ações - em poesia.

Só por nos permitir compartilhar por 83 min da companhia desse personagem singular, o documentário Pan-Cinema Permanente, de Carlos Nader, já valeria a pena. Mas o diretor, parceiro de Waly por décadas em performances multimídia, consegue criar um mosaico pungente - e imperdível - do amigo. Merecidamente ganhador da competição brasileira de melhor longa e média-metragem do festival É Tudo Verdade deste ano.

Sobre o poeta
* A arte sem amarras, reportagem na revista do Sesc-SP.
* A escrita hiperbólica de Waly Salomão, na Subcultura.
* Entrevista com Waly Salomão, no Jornal Poesia Viva.

Sobre o documentário
* Waly em cacos brilhantes, noDocBlog.
* Tudo é efeito, crítica da revista Cinética.

ASSISTA NA FAIXA EM SP!
De sexta-feira (7/11) até a próxima quinta-feira (13/11), sempre às 18h10, será exibido gratuitamente o documentário Pan-Cinema Permanente, no Cine Bombril (Av. Paulista, 2.073 - Conjunto Nacional), em São Paulo.
Na segunda-feira (10/11), às 20h30, o documentário tem pré-estréia seguida de debate com o diretor Carlos Nader, o escritor Antonio Cícero e o psicanalista Luiz Tenório Lima. Os interessados deverão retirar ingresso na bilheteria do cinema a partir das 19h30. (FONTE:
CineClick)

Exterior

Divulgação
(de Waly Salomão)


Por que a poesia tem que se confinar?
às paredes de dentro da vulva do poema?
Por que proibir à poesia
estourar os limites do grelo
da greta
da gruta
e se espraiar além da grade
do sol nascido quadrado?

Por que a poesia tem que se sustentar
de pé, cartesiana milícia enfileirada,
obediente filha da pauta?
Por que a poesia não pode ficar de quatro
e se agachar e se esgueirar
para gozar
- carpe diem! -
fora da zona da página?

Por que a poesia de rabo preso
sem poder se operar
e, operada,
polimórfica e perversa,
não pode travestir-se
com os clitóris e balangandãs da lira?

7 de nov. de 2008

O escritor é como uma antena

“A matéria-prima da arte é a própria vida. O escritor capta o mundo como se tivesse antenas. Transmite, comunica e ajuda o leitor a conhecer o outro melhor: sobre o amor, o ódio, a fome, a guerra, a morte.
O artista fantasia, imagina e elabora uma outra realidade. Ele imita a realidade, mas a devolve, na obra, como se fosse nova.”

 
Leia mais em CAMPEDELLI, Samira Yousseff. 3 ed. Literatura: História & Texto 1. São Paulo: Saraiva, 2001, p. 32-33.
  •  

6 de nov. de 2008

O que é arte? O que caracteriza uma obra-prima?

“A função e o objetivo de uma grande obra de arte, as expectativas nela depositadas e o papel do artista não são constantes, variam conforme a época e a sociedade. Contudo, algumas obras se destacam por terem a necessidade de falar de algo além da sua própria época e oferecerem uma inspiração e um significado que atravessam os tempos.” (CUMMING, Robert. Para entender a arte. São Paulo: Ática, 1996, p. 8.)

"Tarefas máximas da arte:
• formar uma visão de mundo;
• transformar a natureza;
• transformar a cultura;
• interpretar a realidade;
• expressar uma visão de mundo."

"A arte é criação que transforma e interpreta o mundo em que vivemos."

 
Leia mais em CAMPEDELLI, Samira Yousseff. 3 ed. Literatura: História & Texto 1. São Paulo: Saraiva, 2001, p. 12-15.
  •  

2 de nov. de 2008

Spira Mirabilis

Cavalgo na gangorra
De um mar revolto
Submissa ferocidade
Turbilhão de estrelas
Terno como a noite

Vórtice tenaz que
Inunda minhas asas
Busco remos de placebo
Esfinge como bússola
O mundo se esgueira
Entre gargalhadas

Átimo eterno
Entre o ser e
O deixar ser

Hoje matei...

Hoje matei minha avó. Se eu dissesse que foi sem querer, estaria mentindo. Mas já sinto falta dela. Minha vozinha querida. Não vai ter mais torta de bombom Serenata no final de semana nem presentinho no meu aniversário.

Foi ela quem me apresentou ao meu dom. Não gosto muito de falar disso, porque as pessoas. Deixa pra lá. Eu tinha cinco anos quando vi a Pollyana pela primeira vez. Essa bonequinha linda abraçava a gente e dizia várias frases, como “Estou contente com você”, em cinco línguas. Eu dormia e acordava pensando na Polly. Minha mãe acabou com meus sonhos quando que não ia gastar um absurdo com um brinquedo. Não adiantou chorar nem espernear. À noite, eu ajoelhei na beirada da cama e tive uma conversa séria com a única pessoa que podia me ajudar. Dei um ultimato a Deus. Se eu era mesmo filha dele, tinha que dar um jeito de me arrumar a Polly. Ele respondeu. No dia seguinte, vovó chegou com ela. E eu entendi que a resposta era muito mais que uma boneca. A frase que eu mais gostava da Polly era: “A felicidade está ao seu lado, basta saber olhar”. E eu procurava no quarto todo. Nem sei onde ela foi parar. Acho que está no baú lá em cima.

A partir desse dia, eu pedia e acontecia: prova adiada porque a professora ficou doente, vestido novo que a minha avó deu, as férias na fazenda do tio Fellipe que minha mãe não queria deixar. Chegou a um ponto que eu não precisava nem pedir, só pensar. Tinha uma menina muito chata na minha turma. Era Aninha pra cá, Aninha pra lá. Todo mundo queria copiar o dever dela, todo mundo queria sentar do lado daqueles cachinhos desbotados e sorriso de lata. De uma hora pra outra o pai dela foi transferido pra Goiânia. O que mais eu poderia pedir?

Todo final de semana eu vou na casa da minha avó. A gente combina como vai ser minha festa de 15 anos, mês que vem. Eu contei pra ela do Vitor, o garoto mais fofo do mundo. Quando ele chega na sala todo suado de jogar bola na hora do recreio, o cabelo colado na testa, ai, meu Deus. Ele arregaça a manga e fica aparecendo o rabinho do dragão que ele tem no braço. Lindooo. A Va me falou que foi ele quem jogou aquela bomba no banheiro dos meninos no mês passado. Não sei se é verdade, mas ela senta do lado dele, deve saber. Ai, porque eu não sou da sala dele? Outro dia, eu estava na cantina e ele chegou do meu lado pra comprar um refri. Daí, ele me ofereceu um pouquinho. Quase morri. Depois ele me perguntou se eu ia no churras da Va, no sábado. Claro que sim! Depois da aula, eu e a Va fomos num tatuador amigo dela e botamos piercing no umbigo. Ficou super, pra arrasar na festa.

Antes de ir por churrasco, passei na casa da vovó. No quarto dela, tem uma penteadeira com um espelho enooorme e eu estava olhando o piercing quando ela chegou. Não acreditei no que ela fez. Foi direto contar pra papai. Qual o problema d’eu fazer um piercing? O corpo é meu. O pior foi o que o outro pai fez comigo. Nada de churrasco, nada de Vitor. Também não falei mais com ninguém. Fiquei o dia todo lá fora, na varanda, pensando “como vovó pôde”. E aquilo crescendo dentro de mim. Às sete, a Debbie me liga. Não pude acreditar. A Va ficou com o Vitor. Logo depois, ouvi um grito. Minha avó caiu na cozinha. A felicidade agora estava ao lado da Va.

O filho do campeão de sumô


“Pai, quando eu crescer, quero ser como você – só que magro.”

Lei de Talião

Indolor seria o dolo ao dólar
Se não dissipasse meu destino

O declínio dos estados desunidos
Dizima diretamente o meu dedão

Grass doesn’t stress to grow

Nascer mato
Vagabundo pela estrada
Domar montanhas
Deslizar penhascos

Lagarto ao sol
Orvalho universal
Vento

Sem fardo

A Corporação

“E aí, já arranjou alguma coisa?” É a pergunta que ouço insistentemente. Minha resposta, sempre negativa, desperta uma reação estranha nas pessoas. Entrevejo um misto de compaixão com uma pitada de temor de que venha a acontecer o mesmo com elas. Os olhares piedosos e os conselhos edificantes são mais incômodos do que o sorriso mal disfarçado da minha chefe ao anunciar que a empresa dispensava meus serviços.

Antes que você também faça a tal cara de quem olha pra um cachorrinho abandonado, devo alertar: eu não estou de esposa traída nessa história. Fazia tempo que esse casamento já tinha azedado. Pura falta de tato da minha parte, admito. Esqueci de ler o contrato e burlei regras essenciais. É preciso fazer mais do que te pedem, mesmo que o que te peçam já seja sobre-humano. O expediente é de oito horas remuneradas, as extras são por sua conta e devem ser cumpridas à risca. Nunca dê sugestões dissonantes. Alegre-se pelo fato de seu trabalho ser tão bom que o chefe assina como se fosse o autor. Jamais assuma responsabilidade pelo que deu errado. De preferência, coloque a culpa em alguém abaixo de você na hierarquia.

E eu estava aqui justamente refletindo sobre tudo isso, quando o Manuel me chama. Depois da famigerada pergunta, diz que tem uma vaga talhada pra mim. Não vai ser difícil me colocar pra dentro, porque ele é amigo do presidente e CEO. Sem levantar bandeira, ele conta que a corporação construiu uma cidade pra seus colaboradores. Lá, cada um faz o seu expediente. Se o trabalho não rende naquele dia, melhor desfrutar das facilidades do clube: massagem, sauna, passeio por trilhas ecológicas. Tem até uma praia igual às da Polinésia. As refeições são preparadas pelos melhores chefs do jet set internacional, com direito a soneca posterior em um bangalô próximo ao orquidário. Se está difícil de concluir o relatório, ligue pra copa e peça uma cervejinha bem gelada. Ou vá jogar uma partida de videogame, ler um livro, ver um filme.

A cada dia, uma tarefa nova. Nada muito difícil, só pra espantar a rotina. “Já me convenceu, vou-me embora agora”. E meu amigo, não se dando por satisfeito, completa: o salário sobe conforme a sua necessidade. “Preciso de um carro novo”, aumento. “Quero viajar pra ver as Olimpíadas”. “É pra já”. E as promoções são coletivas, além da participação nos lucros, é claro.

Proposta mais do que aceita, malas prontas, Manuel diz que é só retirar a passagem no balcão. Vou-me embora pra Pasárgada Corporation.