7 de dez. de 2009

O sucesso que dá medo

Mulheres admiradas, bem-sucedidas na carreira, relatam como, nos momentos em que mais se destacam, são assaltadas pela dúvida: "Será que não sou uma fraude?"

Juliana Linhares

Quem olha de fora vê uma mulher bem-sucedida e segura de si, admirada e invejada por seus pares. Por dentro, algumas vezes as protagonistas de histórias de sucesso, em especial as que sobem rapidamente na carreira, angustiam-se com dúvidas sobre a própria capacidade de dar conta do recado. Não o questionamento saudável, a que todo ser humano psiquicamente íntegro deve se submeter com alguma regularidade, mas uma sufocante sensação de que se está enganando todo mundo. A atriz Deborah Secco, 30 anos, já havia feito catorze novelas, sete filmes e quatro seriados quando recebeu o convite para participar de um trabalho mais elaborado no seriado Decamerão, da Rede Globo. O peso do texto clássico e dos colegas talentosos abalou até um monumento como Deborah. Ela chegou a desabafar com o diretor do programa, Guel Arraes. "Disse a ele: 'às vezes me dá um medo. Acho que uma hora vão descobrir que eu não sei fazer isso' ", relata. Deborah foi tranquilizada e a crise passou, como em geral acontece. A psicóloga americana Valerie Young, uma das maiores pesquisadoras no que chama de Fenômeno do Impostor ("Já que ele ainda não foi catalogado oficialmente como uma desordem emocional", explica), afirma que 70% das pessoas bem-sucedidas profissionalmente já passaram por situação parecida em algum momento da carreira. Apesar de afligir também os homens, é muito mais comum em mulheres. "Somos mais atingidas, entre outros motivos, pelo fato de sermos a primeira geração de mulheres em altos cargos nas empresas. Isso provoca um questionamento íntimo muito forte", explica Valerie.

Todos os afetados são praticamente unânimes em relatar a mesma reação: a impressão de que a qualquer momento "alguém" vai aparecer, bater no seu ombro e dizer que a impostura foi por fim descoberta. Morando atualmente na Austrália, onde termina um MBA, a executiva paulistana Eneida Bini, 49 anos, é o caso clássico da profissional de carreira exemplar em público e dúvidas atrozes em particular. Em apenas dez anos, tornou-se gerente, diretora, vice-presidente e presidente de uma multinacional de cosméticos. Quando parecia estar no auge, aceitou o convite para presidir outro gigante do setor. "Apesar de todas essas conquistas, eu pensava: 'Será que eu sou tudo isso? Será que mereço os elogios e as promoções que recebo? Talvez não' ", relata. No início de uma carreira que tem tudo para ser brilhante – ela mora nos Estados Unidos e faz doutorado em ciências da computação –, Juliana Freitag Borin, 31, também tem a coragem de assumir as mesmas inseguranças. "Penso que esse lugar não é para mim. A sensação é que em algum momento vão entender que não sou tão capaz quanto pensam que sou", diz Juliana, que nas horas de cobrança brava se ampara no marido. "Ele me lembra dos artigos que já publiquei e de que tenho mestrado e doutorado quase completo."

Em 1978, duas psicólogas da Universidade da Geórgia, Pauline Clance e Suzanne Imes, analisaram um grupo de 150 mulheres com carreira promissora que duvidavam da própria competência e creditavam seu sucesso à sorte ou ao fato de tapearem seus chefes sobre sua capacidade. Em comum, tinham entre 30 e 40 anos, haviam sido promovidas uma ou várias vezes em curto espaço de tempo, eram testadas em seus limites e, apesar do apoio dos superiores e dos bons resultados operacionais, sempre colocavam em dúvida suas realizações. As duas pesquisadoras chegaram a sugerir que o distúrbio ganhasse dimensão de síndrome e fosse tratado como deficiência emocional, mas a proposta não foi para a frente. A psicóloga brasileira Ana Fraiman, que trabalha com preparação de carreiras, acredita que a raiz do processo esteja na infância: crianças inteligentes, atiradas ou dotadas de talento artístico cujos pais negligenciam ou censuram essas qualidades podem desenvolver uma insegurança crônica. "Do ponto de vista profissional, são pessoas brilhantes. Mas afetivamente são carentes e vulneráveis", explica. A tese, no entanto, não se aplica a todo mundo. Eneida, por exemplo, diz que viveu uma história exatamente contrária: na infância, seus méritos eram reconhecidos e incentivados, o que a levou a um processo crescente de cobrança interior. "Eu me destacava em tudo o que fazia. Minha mãe me elogiava muito para as amigas dela, e eu, cada vez mais, me sentia na responsabilidade de confirmar que ela estava certa", conta.

Os estudiosos do tema constatam que, além das executivas em altos cargos, artistas também são especialmente vulneráveis ao sentimento de impostura. "Isso acontece em parte por causa do assédio agressivo dos fãs, que endeusam seus ídolos, e também porque as artistas convivem com a angústia de não saber se terão uma performance tão boa quanto a do último filme ou disco", diz Valerie Young. É possível argumentar também pelo caminho inverso: carreiras em que a adoração é a norma atraem pessoas justamente que têm necessidade profunda de ser aduladas – e muita insegurança sobre seu talento. A cantora canadense Nelly Furtado já declarou em entrevista que, a certo momento da carreira, se sentiu exatamente assim. "A fama me pegou de surpresa. Foi tudo muito rápido. Depois de dois anos de turnê e festas, comecei a passar horas sozinha em casa, olhando para o chão; eu me sentia uma fraude", disse. A atriz inglesa Rachel Weisz, Oscar de atriz coadjuvante pelo filme O Jardineiro Fiel, carrega um peso similar: "Sinto culpa por tudo, principalmente pelo sucesso. É como se, ao me sair bem, estivesse privando alguém de alguma coisa". Ao ganhar um Oscar pelo filme Acusados, em 1989, Jodie Foster, acostumada à fama desde criança, abriu o coração: "Sinto que estou trapaceando, e algum dia vão descobrir que eu não sabia o que estava fazendo". Até hoje, obviamente, ninguém deu o tapinha no ombro e a mandou cair fora.

Impostores de verdade


Tem gente que sabe tudo, mas acha que não vale nada, e tem gente que acha que vale tudo e sabe dar um jeitinho nos eventuais problemas que apareçam diante desse conceito. Estamos falando de Michaele e Tareq Salahi, o casal que deu um aplique na Casa Branca, como o planeta inteiro a esta altura deve estar sabendo. Eles vão ser punidos ou vão voar ainda mais alto, aparecendo num reality show? Vão virar celebridades permanentes ou chafurdar na indesejável categoria de ex-famosos? A ânsia de projeção é um dos fenômenos mais aborrecidamente comentados da era contemporânea, mas não adianta: toda vez que alguém faz alguma coisa absurda para aparecer, é irresistível não dar uma espiada. Munidos de boa figura e imensa cara de pau, eles entraram aparentemente sem convite na primeira recepção de gala do governo Obama. Como o homenageado era o primeiro-ministro da Índia, Michaele, ex-coisa-nenhuma apesar das pretensões à fama, vestiu um sári de parar o trânsito em Nova Délhi e roubou a festa.

Ela e o marido cumprimentaram Obama em pessoa, tiraram fotos com figurões e, ao chamado para o jantar de lugares marcados, foram embora de fininho. Ninguém ficaria sabendo, mas aí não teria graça. Então, postaram as fotos em sua página na internet. Pronto, viraram caso de segurança nacional. Michaele, 44 anos, e Tareq, 41, frequentam o mundo dos cavalos e dos campeonatos de polo, mas têm fortuna duvidosa, uma vinícola falida e uma coleção de processos. Ela é candidata a um programa sobre a vida de milionárias. "Não somos penetras", garante. Uma confusa troca de e-mails com a amiga de um amigo bem relacionada na Casa Branca revela intenso esforço para obter convite. A Casa Branca investiga, o Serviço Secreto idem, até o Congresso se debruça sobre o fato. O casal transpira felicidade.

FONTE: Revista Veja.

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