2 de nov. de 2008

Hoje matei...

Hoje matei minha avó. Se eu dissesse que foi sem querer, estaria mentindo. Mas já sinto falta dela. Minha vozinha querida. Não vai ter mais torta de bombom Serenata no final de semana nem presentinho no meu aniversário.

Foi ela quem me apresentou ao meu dom. Não gosto muito de falar disso, porque as pessoas. Deixa pra lá. Eu tinha cinco anos quando vi a Pollyana pela primeira vez. Essa bonequinha linda abraçava a gente e dizia várias frases, como “Estou contente com você”, em cinco línguas. Eu dormia e acordava pensando na Polly. Minha mãe acabou com meus sonhos quando que não ia gastar um absurdo com um brinquedo. Não adiantou chorar nem espernear. À noite, eu ajoelhei na beirada da cama e tive uma conversa séria com a única pessoa que podia me ajudar. Dei um ultimato a Deus. Se eu era mesmo filha dele, tinha que dar um jeito de me arrumar a Polly. Ele respondeu. No dia seguinte, vovó chegou com ela. E eu entendi que a resposta era muito mais que uma boneca. A frase que eu mais gostava da Polly era: “A felicidade está ao seu lado, basta saber olhar”. E eu procurava no quarto todo. Nem sei onde ela foi parar. Acho que está no baú lá em cima.

A partir desse dia, eu pedia e acontecia: prova adiada porque a professora ficou doente, vestido novo que a minha avó deu, as férias na fazenda do tio Fellipe que minha mãe não queria deixar. Chegou a um ponto que eu não precisava nem pedir, só pensar. Tinha uma menina muito chata na minha turma. Era Aninha pra cá, Aninha pra lá. Todo mundo queria copiar o dever dela, todo mundo queria sentar do lado daqueles cachinhos desbotados e sorriso de lata. De uma hora pra outra o pai dela foi transferido pra Goiânia. O que mais eu poderia pedir?

Todo final de semana eu vou na casa da minha avó. A gente combina como vai ser minha festa de 15 anos, mês que vem. Eu contei pra ela do Vitor, o garoto mais fofo do mundo. Quando ele chega na sala todo suado de jogar bola na hora do recreio, o cabelo colado na testa, ai, meu Deus. Ele arregaça a manga e fica aparecendo o rabinho do dragão que ele tem no braço. Lindooo. A Va me falou que foi ele quem jogou aquela bomba no banheiro dos meninos no mês passado. Não sei se é verdade, mas ela senta do lado dele, deve saber. Ai, porque eu não sou da sala dele? Outro dia, eu estava na cantina e ele chegou do meu lado pra comprar um refri. Daí, ele me ofereceu um pouquinho. Quase morri. Depois ele me perguntou se eu ia no churras da Va, no sábado. Claro que sim! Depois da aula, eu e a Va fomos num tatuador amigo dela e botamos piercing no umbigo. Ficou super, pra arrasar na festa.

Antes de ir por churrasco, passei na casa da vovó. No quarto dela, tem uma penteadeira com um espelho enooorme e eu estava olhando o piercing quando ela chegou. Não acreditei no que ela fez. Foi direto contar pra papai. Qual o problema d’eu fazer um piercing? O corpo é meu. O pior foi o que o outro pai fez comigo. Nada de churrasco, nada de Vitor. Também não falei mais com ninguém. Fiquei o dia todo lá fora, na varanda, pensando “como vovó pôde”. E aquilo crescendo dentro de mim. Às sete, a Debbie me liga. Não pude acreditar. A Va ficou com o Vitor. Logo depois, ouvi um grito. Minha avó caiu na cozinha. A felicidade agora estava ao lado da Va.

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