“E aí, já arranjou alguma coisa?” É a pergunta que ouço insistentemente. Minha resposta, sempre negativa, desperta uma reação estranha nas pessoas. Entrevejo um misto de compaixão com uma pitada de temor de que venha a acontecer o mesmo com elas. Os olhares piedosos e os conselhos edificantes são mais incômodos do que o sorriso mal disfarçado da minha chefe ao anunciar que a empresa dispensava meus serviços.Antes que você também faça a tal cara de quem olha pra um cachorrinho abandonado, devo alertar: eu não estou de esposa traída nessa história. Fazia tempo que esse casamento já tinha azedado. Pura falta de tato da minha parte, admito. Esqueci de ler o contrato e burlei regras essenciais. É preciso fazer mais do que te pedem, mesmo que o que te peçam já seja sobre-humano. O expediente é de oito horas remuneradas, as extras são por sua conta e devem ser cumpridas à risca. Nunca dê sugestões dissonantes. Alegre-se pelo fato de seu trabalho ser tão bom que o chefe assina como se fosse o autor. Jamais assuma responsabilidade pelo que deu errado. De preferência, coloque a culpa em alguém abaixo de você na hierarquia.
E eu estava aqui justamente refletindo sobre tudo isso, quando o Manuel me chama. Depois da famigerada pergunta, diz que tem uma vaga talhada pra mim. Não vai ser difícil me colocar pra dentro, porque ele é amigo do presidente e CEO. Sem levantar bandeira, ele conta que a corporação construiu uma cidade pra seus colaboradores. Lá, cada um faz o seu expediente. Se o trabalho não rende naquele dia, melhor desfrutar das facilidades do clube: massagem, sauna, passeio por trilhas ecológicas. Tem até uma praia igual às da Polinésia. As refeições são preparadas pelos melhores chefs do jet set internacional, com direito a soneca posterior em um bangalô próximo ao orquidário. Se está difícil de concluir o relatório, ligue pra copa e peça uma cervejinha bem gelada. Ou vá jogar uma partida de videogame, ler um livro, ver um filme.
A cada dia, uma tarefa nova. Nada muito difícil, só pra espantar a rotina. “Já me convenceu, vou-me embora agora”. E meu amigo, não se dando por satisfeito, completa: o salário sobe conforme a sua necessidade. “Preciso de um carro novo”, aumento. “Quero viajar pra ver as Olimpíadas”. “É pra já”. E as promoções são coletivas, além da participação nos lucros, é claro.
Proposta mais do que aceita, malas prontas, Manuel diz que é só retirar a passagem no balcão. Vou-me embora pra Pasárgada Corporation.
Nenhum comentário:
Postar um comentário